Essa semana, a nóticia de que uma menina acordou sendo molestada dentro de um ônibus do RJ repercutiu. Isso, infelizmente, é normal. Mais do que a gente pensa, mais do que a gente quer que seja. Mas o que chamou a atenção nesse caso não foi o ocorrido, e sim a reação da vítima: "Depois do episódio, no entanto, disse que passará a ir de calça para o colégio."
Imagine-se ouvindo de alguém que foi picado por uma vespa que agora só vai usar roupas que cubram todo o corpo pra que isso não aconteça de novo. Você não acharia loucura? Então por que não acham absurdo que uma mulher precise abrir mão de uma peça de roupa por causa de um abuso?
Mas como nós explicamos a ela que a culpa não é sua, que não deixe de usar algo que lhe faz bem depois de um trauma, se não conseguimos nem ao menos explicar pra um homem que é errado tocar no corpo de uma mulher sem que ela o queira?
E o pior é que o problema não está na saia, no vestido, no short curto, na calça jeans justa. Existem países onde as mulheres usam burcas que constam em listas de "piores lugares para uma mulher viver".
O problema está em pessoas como Alexandre Frota, que acham divertido aparecer em rede nacional fazendo "piada" sobre estupro. E em todos aqueles que foram coniventes achando graça.
O problema está na nossa cultura, por todos os lugares. Está na culpabilização da vítima, ao se preocuparem mais em ensinar a uma menina um playbook completo de dicas de como não ser estuprada, ao invés de ensinar a um garoto a simples noção de que é errado estuprar.
Está no silenciamento de achar que "quem cala consente". Está na banalização de tratar o sofrimento de 16 mulheres que a cada hora enfrentam um estuprador como algo engraçado.
Está nos noticiários que insistem em citar a roupa que a vítima usava, ou a quantidade de álcool ingerida, como se isso fizesse alguma diferença.
Está nos noticiários que insistem em citar a roupa que a vítima usava, ou a quantidade de álcool ingerida, como se isso fizesse alguma diferença.
O problema não está na roupa, não está no excesso de bebida, o problema não "poderia ser evitado por ela". Está no estuprador. E só.
Mulher, a culpa não é sua. É impossível conceber que, em 5 de março de 2015, ainda seja preciso escrever tudo isso, quando soa tão óbvio.
5 de março. Vocês sabem em que semana nós estamos, não sabem?
Pois é. Feliz dia internacional da mulher.
