sábado, 23 de maio de 2015

"Poderia ter uma Chacina da Candelária por ano"

Em 1993, policiais atiraram contra cerca de setenta crianças e adolescentes de rua que dormiam na área da Candelária, no centro do Rio, matando oito.  Dos policiais envolvidos, alguns nem foram condenados. E dos condenados, todos foram soltos.
E é claro que essa impunidade não choca ninguém. Na verdade, não é nem preciso dizer que eles foram aplaudidos por uma quantidade considerável de pessoas.
Um desses menores sobreviventes apareceu nos noticiários novamente, sete anos após a Chacina.  Sandro Barbosa do Nascimento sequestrou um ônibus da linha 174, assassinou a refém e morreu asfixiado pelos policiais.
Você pode pensar que o desfecho do sequestro teria sido diferente se Sandro tivesse sido morto na Chacina, já que ele simplesmente não teria acontecido.  Essa é uma relação bem óbvia. Porém, é extremamente simplista.
O desfecho também seria diferente se Sandro, ao ser preso por seus delitos na antiga FEBEM, tivesse sido reabilitado (que, na teoria, era a função da Fundação) e não voltasse a cometer outros crimes. Reitero: NA TEORIA. Na prática, a educação, o acompanhamento psicológico e apoio a dependentes químicos ficaram apenas no discurso. E quando os menores fugiam, diziam que era má vontade dos mesmos, que eles não queriam se reabilitar. Novamente, é mais fácil pensar assim do que admitir todo o quadro de torturas, maus tratos, superlotação e uma total falta de organização, onde os menores que cometeram pequenos delitos ocupavam os mesmos espaços que aqueles que cometeram crimes graves.

Mas falemos do presente. Essa semana, uma sequência de assaltos e esfaqueamentos no Rio de Janeiro amedrontou a cidade (ou pelo menos parte dela). A repercussão de casos como estes sempre dividem as pessoas (de forma simplista, de novo) entre “a galera dos Direitos Humanos defensora de bandidos” e as que acreditam que “bandido bom é bandido morto”.  As pessoas do segundo grupo esquecem que as do primeiro, defendendo os Direitos Humanos, estão defendendo seus Direitos também. O artigo 3º da Declaração dos DH não diz que “todo criminoso tem direito à vida”. Diz que toda pessoa tem, incluindo você e o médico que foi assassinado, e é por isso que há leis para aqueles que cometem um homicídio. O X da questão é que querer matar alguém por ter matado alguém é um sentimento de vingança, e as leis são feitas à luz da razão, não da emoção.
Casos como estes são um prato cheio para quem defende a redução da maioridade penal ou da pena de morte. Esse âmbito não é o foco, então lembrar que nenhum país que adotou essas medidas reduziu seu índice de criminalidade é o suficiente.

Desde que essa onda de crimes começou (a chilena esfaqueada foi o quinto), ouvi ou li diversas vezes que “poderia ter uma Chacina por ano”. Quando o massacre aconteceu, o suspeito de assassinar o médico não era nem ao menos nascido. De 1993 até 1998, o sistema não mudou e é isso que eles têm em comum: Sandro foi abandonado pelo pai e teve sua mãe assassinada na favela em que moravam, enquanto os pais do outro menor foram indiciados por abandono de incapaz.

Agora imagine que você tenha deixado um resto de comida em cima da mesa do seu computador. Enquanto você lê esse texto, aparece uma barata atraída pelo cheiro. Você vai matá-la e, se você não tirar a comida dali, isso não impedirá que outras baratas apareçam.
Você pode matar uma, duas, três baratas, mas isso não resolverá seu problema, porque você está agindo no efeito e não na causa.

Matar as baratas não mudará o fato de reelegerem um prefeito que acredita que criminalidade não é problema social. De reelegerem um Governo Estadual que fecha escolas e mantém como Secretário de Segurança alguém que diz abertamente o perfil social e racial da vida que vale, ao afirmar que “um tiro em Copacabana é uma coisa, e um tiro na Coreia é outra” há oito anos.  Não que a passagem de tempo tenha mudado a opinião do Secretário. Segundo ele, “um lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas (onde o médico foi assassinado) não pode de maneira nenhuma ser alvo desse tipo de atitude”, enquanto a população das áreas periféricas é assassinada até mesmo pela própria polícia e isso não é considerado inadmissível.
Em algum universo paralelo, as Chacinas seriam tão eficazes a ponto de impedir até mesmo o nascimento desses menores e maiores infratores, porque essa lógica diz que criminosos são criminosos desde que são fetos e não há nada que possa fazer para mudá-los. Quando na realidade, a criminalidade não diminuirá enquanto não quiserem (e a opinião pública se inclui nisso) gastar dinheiro com a vida do pobre, do preto e do favelado, porque reabilitar é caro, educar mais ainda, punir também, sendo mais fácil e barato exterminar logo. 

Podem fazer uma Chacina por dia, mas isso não mudará o fato de que nosso sistema é um eterno prato sujo de comida em cima da mesa e que nada será resolvido enquanto não o tirarem dali.

Nota: Sugiro que ouçam Homem na Estrada - Racionais MC's. Expressa tudo que eu quis dizer milhões de vezes melhor do que eu.  
Nota 2: "Ah, mas eu conheço o filho da prima da tia de uma cunhada que era de classe média e entrou pro crime". Esses casos existem, assim como casos onde as pessoas são "naturalmente más", "possuem um mapa astral favorável à violência", "foram enviada por Deus pra causar o mal", ou qualquer coisa do gênero. Mas são exceções e exceções não podem ser tomadas como regra para determinarem a política a ser usada em uma sociedade inteira.

domingo, 10 de maio de 2015

Feliz dia das mães! Agora volte pra cozinha.

O dia das mães chegou. O ritual de propagandas e promoções já podia ser visto há algumas semanas. A mesma ladainha de sempre: uma família branca, classe média, hetero, cis, blá, blá, blá, protagonizando os comerciais. Quase nada (ou nada mesmo) de mães negras, mães lésbicas, mães pobres, mães presidiárias, "mães solteiras" ou mães trans.
Fora os protagonistas, ainda tem a problemática do conteúdo. Geralmente, esses comerciais só reforçam o que rola em todos os outros 364 dias do ano: machismo e sexismo. Vide esse comercial da Ponto Frio. Ele é de 2012, mas a lógica é a mesma. Nas lojas, vê-se em promoção jogo de panelas, fogões, geladeiras, máquinas de lavar, entre outros produtos para a cozinha e a área de serviço. As mães, antes de mães, são mulheres. E mulheres não devem sair dessas áreas da casa, mesmo.

Continuando o ritual: o dia das mães em si. O filho dedicado dará uma maravilhosa faca elétrica de cortar carne para a sua mãe. "É tudo para facilitar sua vida, mamãe. Claro que eu poderia facilitá-la me oferecendo a ajudar cortando a carne também, mas essa faca era a sua cara. Ah, precisava sim, deixa de ser modesta."
Depois de receber o presente, a mãe ficará cansada porque passara o dia inteiro na cozinha, o almoço sairá tarde (ela ainda terá que ouvir reclamações) e, logo depois, irá tirar uma soneca. E acabou o dia das mães. E o filho pródigo e seu pai ainda terão a cara de pau de dizer, com dó, que ela não aproveitou seu dia, mesmo depois de não ajudarem em absolutamente nada. Mas pelo menos deram um presente legal.

Aos filhos que se contemplaram com a situação narrada, eu vos digo: Se quiserem mesmo dar um presente às suas mães, não deixem todas as tarefas domésticas em suas costas como se fosse obrigação delas. Diga a seu pai que, depois de passar a manhã e a tarde inteira no sofá coçando as partes, elas não cairão se ele levantar pra pegar uma cerveja sozinho.  Não só no dia das mães, mas em todos os dias do ano inteiro.
E, se você for uma garota e tiver um irmão, dê um presente a ela e a si mesma. Faça-o dividir os afazeres com vocês.
No geral, mulheres não escolhem cuidar da casa depois de um dia exaustivo de trabalho. Ou nem trabalhar pra se dedicar totalmente ao lar. Mulheres não escolhem ter filhos. Mulheres são condicionadas a isso, desde o primeiro momento em que ganham uma panelinha de plástico e uma boneca. Então, se você acha que não deve fazer nada porque "ela escolheu isso", volte na rede social ao lado e tire a foto de perfil ou o textão que você pôs em sua homenagem.
De nada adianta ações belas ao público quando, no privado,  você acredita que "mulher foi feita para o tanque e homem para o botequim".

E um feliz dia das mães recheado de muita força. Porque precisa-se de muita força pra ser mulher e mais ainda pra ser mãe. E força em dobro pra gerar um bebê com amor e carinho por nove meses pra ele crescer e ficar cuspindo misoginia por aí.