sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Calouros não são burros, já as tradições...

Ouvi a frase "as coisas são assim há muito tempo, não adianta" essa semana. Ela só reforça o quanto sucumbimos ao comodismo. Mas, por mais que seja mais fácil se manter inerte, gastemos um pouco de energia tomando uma atitude.
A expressão foi usada em um contexto, mas percebi que ela se encaixa em outro.

Os trotes são uma tradição desde a Idade Média e geralmente marcam a entrada de estudantes nas universidades. No início, contavam com ritos de passagem muito mais violentos, onde os "calouros" tinham os cabelos arrancados ou eram obrigados a beber urina. Séculos depois, você ainda pode pesquisar por "trotes violentos" e encontrar resultados que contenham agressão física, banho de creolina, racismo, sexismo e até mesmo mortes.

"é só uma brincadeira, vai"

Felizmente, trotes como esses andam ganhando repercussão e os responsáveis são punidos, como visto aqui.

Entretanto, não é sobre eles que quero falar. Por mais que o que eu diga possa servir pros trotes presenciais por envolverem o vocativo de que vou tratar, isso é sobre os on-line que, mesmo parecendo sutis, merecem ser repensados.



Os trotes on-line geralmente envolvem colocar foto da identidade no perfil, mudar o nome e a capa no Facebook. Coisas bobas, mas com significado, principalmente esta última. De repente, o estudante deixa de ser glorificado por ter sido aprovado e vira "calouro burro". A mente do recém universitário entra em conflito. Ele é tratado como Jesus Cristo durante todo o período de divulgação de resultados do processo meritocrata mais conhecido como "vestibular" e, quando começa o período dos trotes, ele encontra alguém dizendo que é Deus.

Ambientes educacionais, no geral, são extremamente hierarquizados. Ali os alunos são inferiores aos professores e, então, surge uma necessidade quase inconsciente de colocar alguém abaixo deles. A desconstrução da ideia de que quem passa é alguém muito melhor do que quem não passou deveria ocorrer, mas não de um modo que perpetue uma mentalidade vertical. No entanto, o ato de chamar o outro de ignorante não se preocupa com desconstrução nenhuma, apenas com colocá-lo numa posição de submissão pra massagear o próprio ego.

Mas se é tudo tão cruel e horrível assim, por que as pessoas se submetem a isso? Bem, a inércia envolve dois pontos:
Primeiro, a acomodação de que falei no início. Não só os estudantes acreditam que devem aceitar a condição de submissão porque é uma tradição, como isso também é usado como argumento pelos veteranos. "Não reclama porque eu já estive no seu lugar."
Mas há mais por trás disso. Paulo Freire disse que "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Não há o desejo de interromper a relação de poder que existe nos trotes porque ela se renova: o subjulgado sabe que um dia ele estará na posição daquele que manda.

Segundo, há a preocupação com a aceitação. A universidade é um ambiente novo, onde, na maioria das vezes, quem ingressa não conhece ninguém. Se não mudar o nome, a foto, a capa ou participar das brincadeiras presenciais, o calouro é mal visto, excluído dos círculos sociais.  O grande problema dos trotes é a falta de consentimento. Não o fazem por livre e espontânea vontade, e sim pela coerção.
Em suma, nada deve ser feito por medo de retaliações. Não há razão pra se importar tanto com a aceitação de pessoas que querem te subjulgar.

Não escrevo isso como resistência porque me impuseram esse tratamento, pelo contrário.  Na recepção que venho tendo, as brincadeiras são opcionais, o que é imprescindível pra que ela seja saudável. Tudo conta com a nossa participação para a elaboração e não com submissão ou humilhação, um exemplo de que é possível estabelecer uma relação horizontal entre veteranos e calouros.
"As coisas são assim há m..." Shhhhh. Tradição não é desculpa. Adianta, sim.

Nota: Dedico esse finalzinho ao pessoal de Geografia da UFF. Vocês fazem jus ao termo "geoamor" <3

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nós precisamos de educação, mas não dessa

Hoje divulgaram alguns resultados do meu antigo (digo isso com pesar) colégio. Pesar por todas as amizades e bons momentos que ele me proporcionou. Mas do sistema (e digo sistema de uma forma geral, não só do meu colégio), não vou sentir saudade nenhuma. E é dele que eu quero falar.

Por mais que tudo que eu vá falar seja óbvio, é o que pede o momento. Sei que nem palavras de conforto costumam ajudar quem passa por essa situação, ainda mais de quem não sabe o que é passar por ela. Tudo bem, há um sistema que essas pessoas precisavam seguir e falharam nisso. Mas não é que eu tente tirar a culpa de quem reprova. A questão é que a falha pode não estar nessas pessoas, mas sim no modo que funciona o nosso sistema educacional.

Basicamente, na maior parte das vezes, ele não educa.

A reprovação não deveria ser estigma de "gente burra". Deveria ser só um atestado de que você não aprendeu o conteúdo daquele ano e precisa vê-lo de novo (isso sem entrar na competência de que os ensinos fundamental e médio não funcionam como o superior;  neles, você é considerado inadequado em uma matéria e precisa ver outras dez todas de novo). Mas, na prática, o sistema sabe diferenciar aprender de conseguir decorar alguns dados e esquecer uma semana depois? Provavelmente não. Concluí todo meu ensino fundamental e médio sem reprovar. E isso nem de longe significa que eu tenha aprendido. Talvez eu devesse ter reprovado; se você me perguntar qual a fórmula da lei dos cossenos, eu não faço a menor ideia. As notas são dadas de 0 a 10. Se eu tiro 7, significa que eu aprendi 70% da matéria e estou apta a passar de ano? Não. Significa que eu fui capaz de enfiar alguns pontos na minha cabeça e cuspir na prova.

O ensino se tornou repetitivo; não há estímulo à criatividade, nem àquilo que se prefere ou tem mais afinidade; o estudo é extremamente individualizado. O que importa é apenas produzir resultados, como passar de ano ou no vestibular.  Por mais que eu tenha lidado com professores que tentam fugir a esse padrão The Wall¹ (passando trabalhos em grupo - o que é muito importante - que nos façam pensar), no geral, é disso que o ensino ainda se trata.

Se até a Secretaria de Educação do RJ chamou a educação de linha de produção, quem sou eu pra dizer o contrário?

Então, se você não quer culpar o sistema, se culpe por não se adequar a ele, por não ter uma memória boa, por ter um emocional desequilibrado que te impede de manter a calma em provas e exames, culpe os céus. Mas não se sinta burro, um desperdício, nem nada disso. Você é bem mais do que um sistema falido que instituições consideradas como "as mais incríveis do mundo" por essa lista já até abandonaram.

¹ The Wall é um filme baseado no álbum homônimo da banda Pink Floyd. Em uma cena, há uma crítica a esse caráter padronizador, repetitivo e hierárquico das escolas. Aqui para quem quiser ver. Recomendo que assistam ao filme inteiro. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Feminismo para possíveis feministas

Antes de tudo, algumas considerações:
Não falo pelo feminismo como um todo. Não sou, nem de longe, algum tipo de líder do movimento. Falo do que acredito que seja o "meu" feminismo. E escrevo isso pra você, mulher, que está lendo, se sentir encorajada a construir o seu, caso ainda não tenha feito.
O feminismo hoje é um movimento muito abrangente (e é muito bom pensar no número alto de mulheres que hoje se declaram feministas), mas considerando a variedade de mulheres envolvidas, algumas generalizações geram uma ideia "errada" da causa.
E "errada" entre muitas aspas, porque não dá pra dizer que algo é absolutamente certo ou errado. São apenas vertentes e pontos de vista diferentes. O meu não é perfeito. Tudo isso se trata de evolução, de um trabalho interno que demanda tempo. Pra algumas mais, pra outras menos. Nenhuma formação de valores é igual a outra e isso afeta diretamente na desconstrução dos mesmos.

A primeira distorção sobre o movimento que se deve tirar da mente é: feminismo é a ideia de que mulheres são superiores aos homens. Se você acha que deve haver igualdade social, política e econômica entre os gêneros e que a opressão do masculino sobre o feminino deve acabar, bem... você está no caminho para ser feminista.
"Então por que é feminismo e não igualismo?"
Porque pra alcançar essa igualdade, antes de tudo, precisa haver uma emancipação feminina. Imagine o seguinte: Há duas pessoas correndo, a A está mais à frente que a B. Para a B alcançar a A, ela precisa correr mais rápido durante um tempo. A pessoa A é o gênero masculino, o B o feminino e essa corridinha mais acelerada é o feminismo.

Mas se é "só" isso, por que muitas meninas têm receio em dizer "eu sou feminista"?
Primeiro, o feminismo é tratado praticamente como um palavrão. Há um estigma de que toda feminista é peluda, feia e "mal comida" (e não teria problema nenhum em ser. Você não é obrigada a se depilar; "feiura" é um juízo de valor construído por padrões midiáticos; e o termo "mal comida" segue ideais falocêntricos de que a vida da mulher gira em torno do órgão sexual masculino. O feminismo te ajuda a desconstruir tudo isso).  Mas, como na nossa sociedade o certo é ser depilada e linda ("bem comida" você não pode ser. Isso também é coisa de "feminista vagabunda". Vai entender), ninguém quer levantar a bandeira e automaticamente ser associada a essa imagem.
Segundo, quando se trata das relações entre homens e mulheres, nossa criação se baseia na aceitação masculina, que tudo que a menina deve fazer é para agradar os homens. E, é óbvio, feminismo não é algo que costume agradá-los. Já cansei de ler por aí "boa mesmo é mulher machista" e derivados. E considerando toda essa criação, isso é algo que cativa. A mulher quer ser vista pelo cara como a mulher boa, a melhor que as outras. Somos criadas com a noção de que todas as outras mulheres são traiçoeiras, falsas, nossas inimigas e que devemos aniquilá-las. Parece absurdo, mas é assim.

E é aí que entra a noção da "sororidade". Em uma visão meio básica, ela vem pra contrapor essa ideia infundada de que devemos nos odiar, quando, na verdade, estamos todas no mesmo barco e devemos nos unir (para combater o patriarcado e as forças do mal).
A sororidade é uma das ideias mais poderosas que vem com o feminismo. Algumas coisas mágicas acontecem quando você a abraça, como:
Você percebe que não precisa haver uma competição pela atenção masculina. Você não precisa odiar uma menina só porque ela é "mais bonita que você". Todas vocês são lindas. Esquece a música do One Direction que diz que você é bonita por não saber que é bonita. Isso pode parecer absurdo no início, mas o que te faz linda é se amar como você é. Suas estrias, celulites, seu cabelo, etc.... Vá pegando todo o padrão de beleza pré-estabelecido, tudo que tente te convencer do contrário e rasgue.
Você percebe que não existem "piranhas", "vadias", "vagabundas" ou qualquer forma de slut-shaming (que é, por definição, o ato de depreciar uma mulher por ter um comportamento sexual que desvie daquele que é esperado que ela tenha). Estes só servem pra tentar restringir e crucificar a liberdade sexual feminina e devem ser abolidos do nosso vocabulário. Se hoje você chama uma mulher de "piranha", amanhã você é quem pode ser chamada. Pense no quanto você não gostaria de ser chamada por alguns desses termos e repense antes de atribuí-los a alguém. E, fora isso, o uso destes é errado por si só. Você, em sua condição de dona do próprio corpo, deve decidir o que fazer com ele sem ter sua reputação julgada por isso (e, consequentemente, sem julgar as outras também).

E lembre-se do principal: o feminismo não quer te obrigar a nada.
O feminismo quer justamente te libertar. Tem a ver com escolha: de se depilar ou não, de ser feminina ou não, de usar batom ou não, de dar ou não, de ser mãe ou não.
"Mas eu não quero ir pra rua protestar sem roupa/ Mas eu quero esperar até o casamento/ Mas eu não quero passar o rodo por aí..."
Isso é ótimo! Mostra que você sabe impor suas vontades. Então, não tenha medo de fazer isso com todas as suas outras escolhas. Só é importante ter certeza de que você está escolhendo porque é o seu querer, não porque te ensinaram que você deveria escolher isso.
Então, meninas, mulheres, moças: conversem com outras mulheres, tirem dúvidas, deem apoio, tentem desconstruir o que lhes foi ensinado, empoderem-se... Libertem-se.

(P.s: Isso tudo é o básico do básico do básico. Caso alguém queira conversar sobre algum assunto mais específico, meu twitter é @tellarobs. <3)