domingo, 15 de novembro de 2015

Vamos com calma, ninguém está te pedindo para não se comover com a França

Sobre os acontecimentos recentes, vejo pessoas dizendo que a comparação entre o que houve em Mariana e o que houve em Paris não deve ser feita porque a) foram tragédias em âmbitos diferentes e que b) tragédia é tragédia.
Pois bem, sobre a), se o problema é a catástrofe ambiental, houve atentados terroristas no Quênia, Nigéria, Tunísia, Kuwait e uma suspeita na Índia, somente nesse último ano; sem falar em Beirute, nessa mesma semana.
Sobre b), o problema é justamente que, na prática, esse discurso de que “tragédia é tragédia” não funciona. E a partir de então, isso não pode ser ignorado.
Quando se fala em comoção seletiva, o problema maior não são as pessoas, é quem passa a informação a elas. Porque enquanto a cada chamada de noticiário há uma nova informação sobre a França, as pessoas descobrem o que houve no Quênia sete meses depois, ou nem isso.


O problema não é o Facebook sugerir foto em solidariedade à França.
O problema é eu não lembrar de ele ter sugerido isso, por exemplo.

E ainda assim, muitas vezes a informação é recebida e logo ignorada. O motivo é claro e pode ser explicado pelo conceito de empatia.

em.pa.ti.a
sf (gr empátheia) Projeção imaginária ou mental de um estado subjetivo, quer afetivo, quer conato ou cognitivo, nos elementos de uma ora de arte ou de um objeto natural, de modo que estes parecem imbuídos dele. Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que ela está sentindo.

Identifica. Identificação. Se toda dor é dor, por que é tão mais fácil se identificar com a dor europeia do que com as outras?

Imagem de Ribs: Filho feio não tem pai
Não é olimpíada de tragédia, não. É simplesmente não ter a desonestidade de ignorar o holofote que existe virado pra Europa e pros Estados Unidos. Podem justificar isso com “mas esses países são de maior importância, então isso é normal”, mas… De maior importância? E o discurso de que todas as tragédias são iguais?
E é obvio que também sabem desviar esse holofote nos momentos mais oportunos; como quando disfarçam que a história do Estado Islâmico em nada diverge da história recente de países como os próprios Estados Unidos, que corroboraram de forma direta – até mesmo com financiamento – ou indireta para a sua formação.

Eu me solidarizo com o povo francês. Mas com o Estado que, além de não se preocupar com os civis Sírios que poderiam ser atingidos no seu ataque em Outubro, instituiu leis que fomentam a xenofobia, não.
Estado esse que nem ao menos sabe colher o que planta. Na realidade, mal dá pra dizer que as populações colhem o que os Estados plantam. A elas só sobra terra arrasada, mesmo.

Nota: o texto está bem, bem bem, bem (...) resumido. É impossível falar de uma questão tão complexa e sentir que ficou completo.