domingo, 15 de novembro de 2015

Vamos com calma, ninguém está te pedindo para não se comover com a França

Sobre os acontecimentos recentes, vejo pessoas dizendo que a comparação entre o que houve em Mariana e o que houve em Paris não deve ser feita porque a) foram tragédias em âmbitos diferentes e que b) tragédia é tragédia.
Pois bem, sobre a), se o problema é a catástrofe ambiental, houve atentados terroristas no Quênia, Nigéria, Tunísia, Kuwait e uma suspeita na Índia, somente nesse último ano; sem falar em Beirute, nessa mesma semana.
Sobre b), o problema é justamente que, na prática, esse discurso de que “tragédia é tragédia” não funciona. E a partir de então, isso não pode ser ignorado.
Quando se fala em comoção seletiva, o problema maior não são as pessoas, é quem passa a informação a elas. Porque enquanto a cada chamada de noticiário há uma nova informação sobre a França, as pessoas descobrem o que houve no Quênia sete meses depois, ou nem isso.


O problema não é o Facebook sugerir foto em solidariedade à França.
O problema é eu não lembrar de ele ter sugerido isso, por exemplo.

E ainda assim, muitas vezes a informação é recebida e logo ignorada. O motivo é claro e pode ser explicado pelo conceito de empatia.

em.pa.ti.a
sf (gr empátheia) Projeção imaginária ou mental de um estado subjetivo, quer afetivo, quer conato ou cognitivo, nos elementos de uma ora de arte ou de um objeto natural, de modo que estes parecem imbuídos dele. Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que ela está sentindo.

Identifica. Identificação. Se toda dor é dor, por que é tão mais fácil se identificar com a dor europeia do que com as outras?

Imagem de Ribs: Filho feio não tem pai
Não é olimpíada de tragédia, não. É simplesmente não ter a desonestidade de ignorar o holofote que existe virado pra Europa e pros Estados Unidos. Podem justificar isso com “mas esses países são de maior importância, então isso é normal”, mas… De maior importância? E o discurso de que todas as tragédias são iguais?
E é obvio que também sabem desviar esse holofote nos momentos mais oportunos; como quando disfarçam que a história do Estado Islâmico em nada diverge da história recente de países como os próprios Estados Unidos, que corroboraram de forma direta – até mesmo com financiamento – ou indireta para a sua formação.

Eu me solidarizo com o povo francês. Mas com o Estado que, além de não se preocupar com os civis Sírios que poderiam ser atingidos no seu ataque em Outubro, instituiu leis que fomentam a xenofobia, não.
Estado esse que nem ao menos sabe colher o que planta. Na realidade, mal dá pra dizer que as populações colhem o que os Estados plantam. A elas só sobra terra arrasada, mesmo.

Nota: o texto está bem, bem bem, bem (...) resumido. É impossível falar de uma questão tão complexa e sentir que ficou completo. 



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O que esqueceram de contar às meninas sobre o amor livre

De uns tempos pra cá, vejo muitas pessoas aderindo ao amor livre, poliamor, relacionamentos abertos e coisas do gênero, inclusive eu. Há uma variedade de acordo com a escolha dos indivíduos. Namorar e poder se relacionar com outras pessoas, não namorar, namorar variás pessoas, enfim. O que eu quero falar aqui não é sobre os relacionamentos abertos em si, mas de uma palavrinha que eu acabei de usar.
Escolha.
E de preferir relacionamentos monogâmicos também

Bom, é claro que ninguém deve se submeter a uma situação em que não se sinta confortável só por parecer bonito e moderno. Contudo, há alguém nessa história que já não foi criado para a monogamia. Alguém cuja ideia da traição até reforça a identificação do seu gênero.
E do outro lado, há as meninas.
Os homens são, desde cedo, ensinados a "pegar todas as menininhas". Quando traem são perdoados, afinal, "eles são homens, né?".
Já as mulheres, não. Mulheres devem amar, servir e se entregar de corpo e alma a um só homem. Porque isso é "da natureza feminina".
Vejam o caso do Mr. Catra que, pelo menos no meu círculo, as pessoas acham legal e batem palma pro poliamor quebrando os pilares da sociedade monogâmica e antiquada. Enquanto isso, em uma entrevista, ele disse que "tem mais de uma mulher¹, mas elas não podem ter outros homens".² Querer impedir as mulheres de fazer algo me parece bem antiquado.

Muito bonita a liberdade
Por isso que me preocupo com a escolha das mulheres. Porque por mais que o discurso do amor livre seja bonito na teoria, o que mais vejo na prática é ele servindo para que homens não assumam responsabilidades e compromissos e depois acusem as mulheres de serem conservadoras que não querem desconstruir a monogamia. A questão é que não há nada revolucionário em um homem adepto do amor livre. Ele não está desconstruindo nada, porque simplesmente não tinha uma monogamia construída.

Por mais bonitos que os ideais de liberdade pareçam, não se submetam a NADA que não as agrade pra manter uma relação. Não há liberdade onde há submissão.

¹ Sugiro que se use "esposa" no lugar de "mulher". Falar que "Fulana é a mulher de Ciclano" é uma forma terrível de afirmá-la como propriedade do homem. 
² O link da entrevista se encontra aqui.  

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A culpa não é das estrelas

Poderia ser um texto sobre astrologia, mas não é. É sobre culpabilização da vítima e traição, mesmo.

Toda vez que uma mulher é traída, famosa ou não, as pessoas dão palpite acerca dos motivos. Oras, ela provavelmente não estava comparecendo ou não estava se cuidando.
Quem nunca ouviu isso? Ou ainda, que mulher que foi traída não se perguntou o que havia feito de errado?

Fiz um mapa aqui e foi isso que deu
Isso é tão internalizado que a primeira declaração que ouvi sobre o assunto dentro da minha própria casa foi "se fazem isso com alguém como a Gisele, imagina o que não fariam comigo?".
"Alguém como a Gisele" (Bündchen) significa ser loira, branca, alta, magra, linda, padrão. Quando ela aparece nos noticiários por se separar após uma traição, a sociedade machista e misógina se contorce, com um enorme "UÉ" pairando sobre ela, afinal... Onde foi que ela errou? E o que explica uma traição é sempre o erro da mulher.
E agora? Se a culpa não pode ser depositada na mulher, quem culparemos?
Ah, sim. A outra mulher.
"Conheça a mulher que arruinou o casamento do casal tal"
"Veja fotos da mulher que destruiu o lar de Fulana e Ciclano"
A misoginia faz com que a mulher seja tratada com repúdio independentemente da sua posição na situação.
Se ela for a traída, ela não soube segurar o homem.
Se ela participou da traição, ela vai ser culpada, julgada e xingada.
Se ela trair, então, além do julgamento da sociedade, ela ainda corre o risco de sofrer estupro coletivo e/ou ser morta.
Mas o homem não. A culpa delas é sempre a desculpa dele. Porque enquanto ela é tratada como a vagabunda que deu em cima, ele é o pobre coitado que não pôde se segurar, já que os instintos masculinos são intocáveis; se uma mulher é abusada, o homem não conseguiu se conter. Se uma mulher é traída, pobre homem... Foi mais forte que ele.
Ano passado mesmo houve o caso de um casal de atores brasileiros que se separou por causa de uma traição da parte dele. Se você citar o nome dele, vão falar do seu trabalho mais recente ou qualquer coisa do gênero. Mas se citar o nome do "pivô da traição", você deve ouvir (como eu mesma já ouvi) "ah, aquela piranha que acabou com o casamento deles? Sei quem é."

NOTÍCIAS DE ÚLTIMA HORA: O PIVÔ DA SEPARAÇÃO É QUEM TRAIU E SÓ

Ninguém deveria se meter na vida privada de ninguém, óbvio. Mas o fazem, e o fazem perpetuando uma demonização que acontece desde que nós somos socializadas. Porque mulher é traiçoeira, em mulher não se pode confiar, mulheres são inimigas, etc., etc..
"Vai me dizer que ela está certa em se envolver com ele sabendo do seu comprometimento?" Vou dizer nada sobre isso porque é tirar, mais uma vez, o holofote da discussão de quem ele deveria estar iluminando: quem traiu.
E quem traiu é quem devia fidelidade. Simples.

A culpa não é da mulher que foi traída. A culpa não é da mulher que se relacionou com o homem casado. A culpa não é das estrelas. A culpa é de quem traiu e ponto.

domingo, 26 de julho de 2015

Double standards e indignação seletiva

Há pouco li a notícia de que um garoto do meu bairro havia sido morto em uma tentativa de assalto. Meu bairro é uma mistura entre as mais variadas classes, então vou ser mais clara. Um garoto branco, classe média, detentor do bom e do melhor.
Queria saber qual seria a reação de seus amigos e entes queridos se eu postasse o link da notícia e dissesse que foi bem feito, porque bandido bom é bandido morto e que é menos um assaltando nossas famílias de bem por aí.
É claro que achariam um absurdo.

Porque realmente seria um absurdo, aliás. A questão é que é um absurdo falar isso de qualquer morte. Mas na realidade não é bem por aí.
Vamos à uma matemática: 80% da população é a favor da pena de morte. E isso inclui as mortes de quando os juízes, na realidade, são os PMs. Sendo assim, dentre 20 pessoas que julgam a ação da PM na morte de um jovem branco de classe média, há 16 hipócritas.
Não digo que a morte de jovens brancos e abastados não deva ser lamentada. Repito que uma vida é uma vida e que deve, sim.



O que eu digo aqui é: double standards. 
O que é isso? Bem, é o que acontece quando essas 16 pessoas lamentam esta morte, mas acham a do criminoso pobre e negro justa, porque foi menos um ser abominável na sociedade.
É o que acontece quando essas 16 pessoas acham que, quando é o jovem burguês, era bom e ainda teria uma vida pela frente. Mas debocham quando a mãe do jovem periférico diz na TV que seu filho era boa pessoa, já que o acham ruim de natureza e merece a morte por ser irrecuperável.
Essas 16 pessoas já devem ter reproduzido a frase "quando for um conhecido seu, você vai mudar de ideia". Pois bem, agora foi. Mas e você? Mudou de ideia?

Pra ficar mais claro, double standards é a expressão usada para situações quando são usados princípios e reações diferentes para situações similares. 

sábado, 23 de maio de 2015

"Poderia ter uma Chacina da Candelária por ano"

Em 1993, policiais atiraram contra cerca de setenta crianças e adolescentes de rua que dormiam na área da Candelária, no centro do Rio, matando oito.  Dos policiais envolvidos, alguns nem foram condenados. E dos condenados, todos foram soltos.
E é claro que essa impunidade não choca ninguém. Na verdade, não é nem preciso dizer que eles foram aplaudidos por uma quantidade considerável de pessoas.
Um desses menores sobreviventes apareceu nos noticiários novamente, sete anos após a Chacina.  Sandro Barbosa do Nascimento sequestrou um ônibus da linha 174, assassinou a refém e morreu asfixiado pelos policiais.
Você pode pensar que o desfecho do sequestro teria sido diferente se Sandro tivesse sido morto na Chacina, já que ele simplesmente não teria acontecido.  Essa é uma relação bem óbvia. Porém, é extremamente simplista.
O desfecho também seria diferente se Sandro, ao ser preso por seus delitos na antiga FEBEM, tivesse sido reabilitado (que, na teoria, era a função da Fundação) e não voltasse a cometer outros crimes. Reitero: NA TEORIA. Na prática, a educação, o acompanhamento psicológico e apoio a dependentes químicos ficaram apenas no discurso. E quando os menores fugiam, diziam que era má vontade dos mesmos, que eles não queriam se reabilitar. Novamente, é mais fácil pensar assim do que admitir todo o quadro de torturas, maus tratos, superlotação e uma total falta de organização, onde os menores que cometeram pequenos delitos ocupavam os mesmos espaços que aqueles que cometeram crimes graves.

Mas falemos do presente. Essa semana, uma sequência de assaltos e esfaqueamentos no Rio de Janeiro amedrontou a cidade (ou pelo menos parte dela). A repercussão de casos como estes sempre dividem as pessoas (de forma simplista, de novo) entre “a galera dos Direitos Humanos defensora de bandidos” e as que acreditam que “bandido bom é bandido morto”.  As pessoas do segundo grupo esquecem que as do primeiro, defendendo os Direitos Humanos, estão defendendo seus Direitos também. O artigo 3º da Declaração dos DH não diz que “todo criminoso tem direito à vida”. Diz que toda pessoa tem, incluindo você e o médico que foi assassinado, e é por isso que há leis para aqueles que cometem um homicídio. O X da questão é que querer matar alguém por ter matado alguém é um sentimento de vingança, e as leis são feitas à luz da razão, não da emoção.
Casos como estes são um prato cheio para quem defende a redução da maioridade penal ou da pena de morte. Esse âmbito não é o foco, então lembrar que nenhum país que adotou essas medidas reduziu seu índice de criminalidade é o suficiente.

Desde que essa onda de crimes começou (a chilena esfaqueada foi o quinto), ouvi ou li diversas vezes que “poderia ter uma Chacina por ano”. Quando o massacre aconteceu, o suspeito de assassinar o médico não era nem ao menos nascido. De 1993 até 1998, o sistema não mudou e é isso que eles têm em comum: Sandro foi abandonado pelo pai e teve sua mãe assassinada na favela em que moravam, enquanto os pais do outro menor foram indiciados por abandono de incapaz.

Agora imagine que você tenha deixado um resto de comida em cima da mesa do seu computador. Enquanto você lê esse texto, aparece uma barata atraída pelo cheiro. Você vai matá-la e, se você não tirar a comida dali, isso não impedirá que outras baratas apareçam.
Você pode matar uma, duas, três baratas, mas isso não resolverá seu problema, porque você está agindo no efeito e não na causa.

Matar as baratas não mudará o fato de reelegerem um prefeito que acredita que criminalidade não é problema social. De reelegerem um Governo Estadual que fecha escolas e mantém como Secretário de Segurança alguém que diz abertamente o perfil social e racial da vida que vale, ao afirmar que “um tiro em Copacabana é uma coisa, e um tiro na Coreia é outra” há oito anos.  Não que a passagem de tempo tenha mudado a opinião do Secretário. Segundo ele, “um lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas (onde o médico foi assassinado) não pode de maneira nenhuma ser alvo desse tipo de atitude”, enquanto a população das áreas periféricas é assassinada até mesmo pela própria polícia e isso não é considerado inadmissível.
Em algum universo paralelo, as Chacinas seriam tão eficazes a ponto de impedir até mesmo o nascimento desses menores e maiores infratores, porque essa lógica diz que criminosos são criminosos desde que são fetos e não há nada que possa fazer para mudá-los. Quando na realidade, a criminalidade não diminuirá enquanto não quiserem (e a opinião pública se inclui nisso) gastar dinheiro com a vida do pobre, do preto e do favelado, porque reabilitar é caro, educar mais ainda, punir também, sendo mais fácil e barato exterminar logo. 

Podem fazer uma Chacina por dia, mas isso não mudará o fato de que nosso sistema é um eterno prato sujo de comida em cima da mesa e que nada será resolvido enquanto não o tirarem dali.

Nota: Sugiro que ouçam Homem na Estrada - Racionais MC's. Expressa tudo que eu quis dizer milhões de vezes melhor do que eu.  
Nota 2: "Ah, mas eu conheço o filho da prima da tia de uma cunhada que era de classe média e entrou pro crime". Esses casos existem, assim como casos onde as pessoas são "naturalmente más", "possuem um mapa astral favorável à violência", "foram enviada por Deus pra causar o mal", ou qualquer coisa do gênero. Mas são exceções e exceções não podem ser tomadas como regra para determinarem a política a ser usada em uma sociedade inteira.

domingo, 10 de maio de 2015

Feliz dia das mães! Agora volte pra cozinha.

O dia das mães chegou. O ritual de propagandas e promoções já podia ser visto há algumas semanas. A mesma ladainha de sempre: uma família branca, classe média, hetero, cis, blá, blá, blá, protagonizando os comerciais. Quase nada (ou nada mesmo) de mães negras, mães lésbicas, mães pobres, mães presidiárias, "mães solteiras" ou mães trans.
Fora os protagonistas, ainda tem a problemática do conteúdo. Geralmente, esses comerciais só reforçam o que rola em todos os outros 364 dias do ano: machismo e sexismo. Vide esse comercial da Ponto Frio. Ele é de 2012, mas a lógica é a mesma. Nas lojas, vê-se em promoção jogo de panelas, fogões, geladeiras, máquinas de lavar, entre outros produtos para a cozinha e a área de serviço. As mães, antes de mães, são mulheres. E mulheres não devem sair dessas áreas da casa, mesmo.

Continuando o ritual: o dia das mães em si. O filho dedicado dará uma maravilhosa faca elétrica de cortar carne para a sua mãe. "É tudo para facilitar sua vida, mamãe. Claro que eu poderia facilitá-la me oferecendo a ajudar cortando a carne também, mas essa faca era a sua cara. Ah, precisava sim, deixa de ser modesta."
Depois de receber o presente, a mãe ficará cansada porque passara o dia inteiro na cozinha, o almoço sairá tarde (ela ainda terá que ouvir reclamações) e, logo depois, irá tirar uma soneca. E acabou o dia das mães. E o filho pródigo e seu pai ainda terão a cara de pau de dizer, com dó, que ela não aproveitou seu dia, mesmo depois de não ajudarem em absolutamente nada. Mas pelo menos deram um presente legal.

Aos filhos que se contemplaram com a situação narrada, eu vos digo: Se quiserem mesmo dar um presente às suas mães, não deixem todas as tarefas domésticas em suas costas como se fosse obrigação delas. Diga a seu pai que, depois de passar a manhã e a tarde inteira no sofá coçando as partes, elas não cairão se ele levantar pra pegar uma cerveja sozinho.  Não só no dia das mães, mas em todos os dias do ano inteiro.
E, se você for uma garota e tiver um irmão, dê um presente a ela e a si mesma. Faça-o dividir os afazeres com vocês.
No geral, mulheres não escolhem cuidar da casa depois de um dia exaustivo de trabalho. Ou nem trabalhar pra se dedicar totalmente ao lar. Mulheres não escolhem ter filhos. Mulheres são condicionadas a isso, desde o primeiro momento em que ganham uma panelinha de plástico e uma boneca. Então, se você acha que não deve fazer nada porque "ela escolheu isso", volte na rede social ao lado e tire a foto de perfil ou o textão que você pôs em sua homenagem.
De nada adianta ações belas ao público quando, no privado,  você acredita que "mulher foi feita para o tanque e homem para o botequim".

E um feliz dia das mães recheado de muita força. Porque precisa-se de muita força pra ser mulher e mais ainda pra ser mãe. E força em dobro pra gerar um bebê com amor e carinho por nove meses pra ele crescer e ficar cuspindo misoginia por aí.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Precisamos falar DE NOVO sobre cultura de estupro

Porque parece que não adiantou das últimas oitocentas milhões de vezes.

Essa semana, a nóticia de que uma menina acordou sendo molestada dentro de um ônibus do RJ repercutiu. Isso, infelizmente, é normal. Mais do que a gente pensa, mais do que a gente quer que seja. Mas o que chamou a atenção nesse caso não foi o ocorrido, e sim a reação da vítima: "Depois do episódio, no entanto, disse que passará a ir de calça para o colégio."
Imagine-se ouvindo de alguém que foi picado por uma vespa que agora só vai usar roupas que cubram todo o corpo pra que isso não aconteça de novo. Você não acharia loucura? Então por que não acham absurdo que uma mulher precise abrir mão de uma peça de roupa por causa de um abuso?
Mas como nós explicamos a ela que a culpa não é sua, que não deixe de usar algo que lhe faz bem depois de um trauma, se não conseguimos nem ao menos explicar pra um homem que é errado tocar no corpo de uma mulher sem que ela o queira?

E o pior é que o problema não está na saia, no vestido, no short curto, na calça jeans justa. Existem países onde as mulheres usam burcas que constam em listas de "piores lugares para uma mulher viver".

O problema está em pessoas como Alexandre Frota, que acham divertido aparecer em rede nacional fazendo "piada" sobre estupro. E em todos aqueles que foram coniventes achando graça.
O problema está na nossa cultura, por todos os lugares. Está na culpabilização da vítima, ao se preocuparem mais em ensinar a uma menina um playbook completo de dicas de como não ser estuprada, ao invés de ensinar a um garoto a simples noção de que é errado estuprar.

Está no silenciamento de achar que "quem cala consente".  Está na banalização de tratar o sofrimento de 16 mulheres que a cada hora enfrentam um estuprador como algo engraçado.
Está nos noticiários que insistem em citar a roupa que a vítima usava, ou a quantidade de álcool ingerida, como se isso fizesse alguma diferença.
O problema não está na roupa, não está no excesso de bebida, o problema não "poderia ser evitado por ela". Está no estuprador. E  só.

Mulher, a culpa não é sua. É impossível conceber que, em 5 de março de 2015, ainda seja preciso escrever tudo isso, quando soa tão óbvio.
5 de março. Vocês sabem em que semana nós estamos, não sabem?
Pois é. Feliz dia internacional da mulher. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Calouros não são burros, já as tradições...

Ouvi a frase "as coisas são assim há muito tempo, não adianta" essa semana. Ela só reforça o quanto sucumbimos ao comodismo. Mas, por mais que seja mais fácil se manter inerte, gastemos um pouco de energia tomando uma atitude.
A expressão foi usada em um contexto, mas percebi que ela se encaixa em outro.

Os trotes são uma tradição desde a Idade Média e geralmente marcam a entrada de estudantes nas universidades. No início, contavam com ritos de passagem muito mais violentos, onde os "calouros" tinham os cabelos arrancados ou eram obrigados a beber urina. Séculos depois, você ainda pode pesquisar por "trotes violentos" e encontrar resultados que contenham agressão física, banho de creolina, racismo, sexismo e até mesmo mortes.

"é só uma brincadeira, vai"

Felizmente, trotes como esses andam ganhando repercussão e os responsáveis são punidos, como visto aqui.

Entretanto, não é sobre eles que quero falar. Por mais que o que eu diga possa servir pros trotes presenciais por envolverem o vocativo de que vou tratar, isso é sobre os on-line que, mesmo parecendo sutis, merecem ser repensados.



Os trotes on-line geralmente envolvem colocar foto da identidade no perfil, mudar o nome e a capa no Facebook. Coisas bobas, mas com significado, principalmente esta última. De repente, o estudante deixa de ser glorificado por ter sido aprovado e vira "calouro burro". A mente do recém universitário entra em conflito. Ele é tratado como Jesus Cristo durante todo o período de divulgação de resultados do processo meritocrata mais conhecido como "vestibular" e, quando começa o período dos trotes, ele encontra alguém dizendo que é Deus.

Ambientes educacionais, no geral, são extremamente hierarquizados. Ali os alunos são inferiores aos professores e, então, surge uma necessidade quase inconsciente de colocar alguém abaixo deles. A desconstrução da ideia de que quem passa é alguém muito melhor do que quem não passou deveria ocorrer, mas não de um modo que perpetue uma mentalidade vertical. No entanto, o ato de chamar o outro de ignorante não se preocupa com desconstrução nenhuma, apenas com colocá-lo numa posição de submissão pra massagear o próprio ego.

Mas se é tudo tão cruel e horrível assim, por que as pessoas se submetem a isso? Bem, a inércia envolve dois pontos:
Primeiro, a acomodação de que falei no início. Não só os estudantes acreditam que devem aceitar a condição de submissão porque é uma tradição, como isso também é usado como argumento pelos veteranos. "Não reclama porque eu já estive no seu lugar."
Mas há mais por trás disso. Paulo Freire disse que "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Não há o desejo de interromper a relação de poder que existe nos trotes porque ela se renova: o subjulgado sabe que um dia ele estará na posição daquele que manda.

Segundo, há a preocupação com a aceitação. A universidade é um ambiente novo, onde, na maioria das vezes, quem ingressa não conhece ninguém. Se não mudar o nome, a foto, a capa ou participar das brincadeiras presenciais, o calouro é mal visto, excluído dos círculos sociais.  O grande problema dos trotes é a falta de consentimento. Não o fazem por livre e espontânea vontade, e sim pela coerção.
Em suma, nada deve ser feito por medo de retaliações. Não há razão pra se importar tanto com a aceitação de pessoas que querem te subjulgar.

Não escrevo isso como resistência porque me impuseram esse tratamento, pelo contrário.  Na recepção que venho tendo, as brincadeiras são opcionais, o que é imprescindível pra que ela seja saudável. Tudo conta com a nossa participação para a elaboração e não com submissão ou humilhação, um exemplo de que é possível estabelecer uma relação horizontal entre veteranos e calouros.
"As coisas são assim há m..." Shhhhh. Tradição não é desculpa. Adianta, sim.

Nota: Dedico esse finalzinho ao pessoal de Geografia da UFF. Vocês fazem jus ao termo "geoamor" <3

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nós precisamos de educação, mas não dessa

Hoje divulgaram alguns resultados do meu antigo (digo isso com pesar) colégio. Pesar por todas as amizades e bons momentos que ele me proporcionou. Mas do sistema (e digo sistema de uma forma geral, não só do meu colégio), não vou sentir saudade nenhuma. E é dele que eu quero falar.

Por mais que tudo que eu vá falar seja óbvio, é o que pede o momento. Sei que nem palavras de conforto costumam ajudar quem passa por essa situação, ainda mais de quem não sabe o que é passar por ela. Tudo bem, há um sistema que essas pessoas precisavam seguir e falharam nisso. Mas não é que eu tente tirar a culpa de quem reprova. A questão é que a falha pode não estar nessas pessoas, mas sim no modo que funciona o nosso sistema educacional.

Basicamente, na maior parte das vezes, ele não educa.

A reprovação não deveria ser estigma de "gente burra". Deveria ser só um atestado de que você não aprendeu o conteúdo daquele ano e precisa vê-lo de novo (isso sem entrar na competência de que os ensinos fundamental e médio não funcionam como o superior;  neles, você é considerado inadequado em uma matéria e precisa ver outras dez todas de novo). Mas, na prática, o sistema sabe diferenciar aprender de conseguir decorar alguns dados e esquecer uma semana depois? Provavelmente não. Concluí todo meu ensino fundamental e médio sem reprovar. E isso nem de longe significa que eu tenha aprendido. Talvez eu devesse ter reprovado; se você me perguntar qual a fórmula da lei dos cossenos, eu não faço a menor ideia. As notas são dadas de 0 a 10. Se eu tiro 7, significa que eu aprendi 70% da matéria e estou apta a passar de ano? Não. Significa que eu fui capaz de enfiar alguns pontos na minha cabeça e cuspir na prova.

O ensino se tornou repetitivo; não há estímulo à criatividade, nem àquilo que se prefere ou tem mais afinidade; o estudo é extremamente individualizado. O que importa é apenas produzir resultados, como passar de ano ou no vestibular.  Por mais que eu tenha lidado com professores que tentam fugir a esse padrão The Wall¹ (passando trabalhos em grupo - o que é muito importante - que nos façam pensar), no geral, é disso que o ensino ainda se trata.

Se até a Secretaria de Educação do RJ chamou a educação de linha de produção, quem sou eu pra dizer o contrário?

Então, se você não quer culpar o sistema, se culpe por não se adequar a ele, por não ter uma memória boa, por ter um emocional desequilibrado que te impede de manter a calma em provas e exames, culpe os céus. Mas não se sinta burro, um desperdício, nem nada disso. Você é bem mais do que um sistema falido que instituições consideradas como "as mais incríveis do mundo" por essa lista já até abandonaram.

¹ The Wall é um filme baseado no álbum homônimo da banda Pink Floyd. Em uma cena, há uma crítica a esse caráter padronizador, repetitivo e hierárquico das escolas. Aqui para quem quiser ver. Recomendo que assistam ao filme inteiro. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Feminismo para possíveis feministas

Antes de tudo, algumas considerações:
Não falo pelo feminismo como um todo. Não sou, nem de longe, algum tipo de líder do movimento. Falo do que acredito que seja o "meu" feminismo. E escrevo isso pra você, mulher, que está lendo, se sentir encorajada a construir o seu, caso ainda não tenha feito.
O feminismo hoje é um movimento muito abrangente (e é muito bom pensar no número alto de mulheres que hoje se declaram feministas), mas considerando a variedade de mulheres envolvidas, algumas generalizações geram uma ideia "errada" da causa.
E "errada" entre muitas aspas, porque não dá pra dizer que algo é absolutamente certo ou errado. São apenas vertentes e pontos de vista diferentes. O meu não é perfeito. Tudo isso se trata de evolução, de um trabalho interno que demanda tempo. Pra algumas mais, pra outras menos. Nenhuma formação de valores é igual a outra e isso afeta diretamente na desconstrução dos mesmos.

A primeira distorção sobre o movimento que se deve tirar da mente é: feminismo é a ideia de que mulheres são superiores aos homens. Se você acha que deve haver igualdade social, política e econômica entre os gêneros e que a opressão do masculino sobre o feminino deve acabar, bem... você está no caminho para ser feminista.
"Então por que é feminismo e não igualismo?"
Porque pra alcançar essa igualdade, antes de tudo, precisa haver uma emancipação feminina. Imagine o seguinte: Há duas pessoas correndo, a A está mais à frente que a B. Para a B alcançar a A, ela precisa correr mais rápido durante um tempo. A pessoa A é o gênero masculino, o B o feminino e essa corridinha mais acelerada é o feminismo.

Mas se é "só" isso, por que muitas meninas têm receio em dizer "eu sou feminista"?
Primeiro, o feminismo é tratado praticamente como um palavrão. Há um estigma de que toda feminista é peluda, feia e "mal comida" (e não teria problema nenhum em ser. Você não é obrigada a se depilar; "feiura" é um juízo de valor construído por padrões midiáticos; e o termo "mal comida" segue ideais falocêntricos de que a vida da mulher gira em torno do órgão sexual masculino. O feminismo te ajuda a desconstruir tudo isso).  Mas, como na nossa sociedade o certo é ser depilada e linda ("bem comida" você não pode ser. Isso também é coisa de "feminista vagabunda". Vai entender), ninguém quer levantar a bandeira e automaticamente ser associada a essa imagem.
Segundo, quando se trata das relações entre homens e mulheres, nossa criação se baseia na aceitação masculina, que tudo que a menina deve fazer é para agradar os homens. E, é óbvio, feminismo não é algo que costume agradá-los. Já cansei de ler por aí "boa mesmo é mulher machista" e derivados. E considerando toda essa criação, isso é algo que cativa. A mulher quer ser vista pelo cara como a mulher boa, a melhor que as outras. Somos criadas com a noção de que todas as outras mulheres são traiçoeiras, falsas, nossas inimigas e que devemos aniquilá-las. Parece absurdo, mas é assim.

E é aí que entra a noção da "sororidade". Em uma visão meio básica, ela vem pra contrapor essa ideia infundada de que devemos nos odiar, quando, na verdade, estamos todas no mesmo barco e devemos nos unir (para combater o patriarcado e as forças do mal).
A sororidade é uma das ideias mais poderosas que vem com o feminismo. Algumas coisas mágicas acontecem quando você a abraça, como:
Você percebe que não precisa haver uma competição pela atenção masculina. Você não precisa odiar uma menina só porque ela é "mais bonita que você". Todas vocês são lindas. Esquece a música do One Direction que diz que você é bonita por não saber que é bonita. Isso pode parecer absurdo no início, mas o que te faz linda é se amar como você é. Suas estrias, celulites, seu cabelo, etc.... Vá pegando todo o padrão de beleza pré-estabelecido, tudo que tente te convencer do contrário e rasgue.
Você percebe que não existem "piranhas", "vadias", "vagabundas" ou qualquer forma de slut-shaming (que é, por definição, o ato de depreciar uma mulher por ter um comportamento sexual que desvie daquele que é esperado que ela tenha). Estes só servem pra tentar restringir e crucificar a liberdade sexual feminina e devem ser abolidos do nosso vocabulário. Se hoje você chama uma mulher de "piranha", amanhã você é quem pode ser chamada. Pense no quanto você não gostaria de ser chamada por alguns desses termos e repense antes de atribuí-los a alguém. E, fora isso, o uso destes é errado por si só. Você, em sua condição de dona do próprio corpo, deve decidir o que fazer com ele sem ter sua reputação julgada por isso (e, consequentemente, sem julgar as outras também).

E lembre-se do principal: o feminismo não quer te obrigar a nada.
O feminismo quer justamente te libertar. Tem a ver com escolha: de se depilar ou não, de ser feminina ou não, de usar batom ou não, de dar ou não, de ser mãe ou não.
"Mas eu não quero ir pra rua protestar sem roupa/ Mas eu quero esperar até o casamento/ Mas eu não quero passar o rodo por aí..."
Isso é ótimo! Mostra que você sabe impor suas vontades. Então, não tenha medo de fazer isso com todas as suas outras escolhas. Só é importante ter certeza de que você está escolhendo porque é o seu querer, não porque te ensinaram que você deveria escolher isso.
Então, meninas, mulheres, moças: conversem com outras mulheres, tirem dúvidas, deem apoio, tentem desconstruir o que lhes foi ensinado, empoderem-se... Libertem-se.

(P.s: Isso tudo é o básico do básico do básico. Caso alguém queira conversar sobre algum assunto mais específico, meu twitter é @tellarobs. <3)