A expressão foi usada em um contexto, mas percebi que ela se encaixa em outro.
Os trotes são uma tradição desde a Idade Média e geralmente marcam a entrada de estudantes nas universidades. No início, contavam com ritos de passagem muito mais violentos, onde os "calouros" tinham os cabelos arrancados ou eram obrigados a beber urina. Séculos depois, você ainda pode pesquisar por "trotes violentos" e encontrar resultados que contenham agressão física, banho de creolina, racismo, sexismo e até mesmo mortes.
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| "é só uma brincadeira, vai" |
Felizmente, trotes como esses andam ganhando repercussão e os responsáveis são punidos, como visto aqui.
Entretanto, não é sobre eles que quero falar. Por mais que o que eu diga possa servir pros trotes presenciais por envolverem o vocativo de que vou tratar, isso é sobre os on-line que, mesmo parecendo sutis, merecem ser repensados.
Os trotes on-line geralmente envolvem colocar foto da identidade no perfil, mudar o nome e a capa no Facebook. Coisas bobas, mas com significado, principalmente esta última. De repente, o estudante deixa de ser glorificado por ter sido aprovado e vira "calouro burro". A mente do recém universitário entra em conflito. Ele é tratado como Jesus Cristo durante todo o período de divulgação de resultados do processo meritocrata mais conhecido como "vestibular" e, quando começa o período dos trotes, ele encontra alguém dizendo que é Deus.
Ambientes educacionais, no geral, são extremamente hierarquizados. Ali os alunos são inferiores aos professores e, então, surge uma necessidade quase inconsciente de colocar alguém abaixo deles. A desconstrução da ideia de que quem passa é alguém muito melhor do que quem não passou deveria ocorrer, mas não de um modo que perpetue uma mentalidade vertical. No entanto, o ato de chamar o outro de ignorante não se preocupa com desconstrução nenhuma, apenas com colocá-lo numa posição de submissão pra massagear o próprio ego.
Mas se é tudo tão cruel e horrível assim, por que as pessoas se submetem a isso? Bem, a inércia envolve dois pontos:
Primeiro, a acomodação de que falei no início. Não só os estudantes acreditam que devem aceitar a condição de submissão porque é uma tradição, como isso também é usado como argumento pelos veteranos. "Não reclama porque eu já estive no seu lugar."
Mas há mais por trás disso. Paulo Freire disse que "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Não há o desejo de interromper a relação de poder que existe nos trotes porque ela se renova: o subjulgado sabe que um dia ele estará na posição daquele que manda.
Segundo, há a preocupação com a aceitação. A universidade é um ambiente novo, onde, na maioria das vezes, quem ingressa não conhece ninguém. Se não mudar o nome, a foto, a capa ou participar das brincadeiras presenciais, o calouro é mal visto, excluído dos círculos sociais. O grande problema dos trotes é a falta de consentimento. Não o fazem por livre e espontânea vontade, e sim pela coerção.
Em suma, nada deve ser feito por medo de retaliações. Não há razão pra se importar tanto com a aceitação de pessoas que querem te subjulgar.
Não escrevo isso como resistência porque me impuseram esse tratamento, pelo contrário. Na recepção que venho tendo, as brincadeiras são opcionais, o que é imprescindível pra que ela seja saudável. Tudo conta com a nossa participação para a elaboração e não com submissão ou humilhação, um exemplo de que é possível estabelecer uma relação horizontal entre veteranos e calouros.
"As coisas são assim há m..." Shhhhh. Tradição não é desculpa. Adianta, sim.
Nota: Dedico esse finalzinho ao pessoal de Geografia da UFF. Vocês fazem jus ao termo "geoamor" <3

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