domingo, 15 de maio de 2016

A falácia do feminismo como combustível de interesse

Esse é um texto meio diferente do normal por ser bem mais pessoal.
(E sempre lembrando que: mantenham em mente que quando digo homem, quero dizer homem cis hetero etc padrãozão da massa.)

Quando eu tinha uns 14, 15 anos, percebi que pra uma menina conquistar um garoto, ela precisava ser difícil. As meninas difíceis, que não pegavam assim, logo de cara, eram as que valiam a pena. Sempre me dei mal dentro dessa lógica porque nunca vi muito sentido em me privar das minhas vontades, mas entendo totalmente o lado delas, justamente por acabar me sentindo mal por ser tão fácil: Era a boa e velha busca pela aceitação masculina.
Mas o tempo passou, o feminismo - felizmente - apareceu na minha vida... E hoje me deparo com outra lógica.
Naquele momento, as garotas eram difíceis aos olhos dos moços porque eram difíceis.
Agora, as garotas são difíceis porque são fáceis.
Porque, no imaginário masculino, o que vejo hoje é uma missão de capturar feministas tal como se fôssemos POKEMONS.
As mulheres que chamavam a atenção deles eram as difíceis: as recatadas, discretas, as que eles precisavam passar, no mínimo, uns três meses tentando "pegar". Se pegasse de primeira, podia descartar.
Aí veio o feminismo.
Mulheres passaram a pensar em si mesmas e a parar de se reprimir a fim de conquistar um valor que já é delas...
...E a liberdade acabou virando um fator atrativo.
E aí não só entra feminismo, mas como também entram todos os estereótipos de cool girl, de magic pixie dream girl... Eu venho pensando nesse texto há tempos e, enquanto isso, duas figuras da ficção não saíam da minha mente: Amy Dunne e Clementine Kruczynski.

Primeiro, a Amy: ela toca na ferida do que é a cool girl. Só o nome já te dá uma ideia do sentido da coisa. Garota Legal. Ela não é simplesmente legal, é uma GAROTA legal. Só o uso dessa já palavra te difere de todas as outras reles mortais, garotas tão chatas: porque ela é uma garota, mas é legal. Ou seja, basicamente, os caras entram em frenesi, entusiasmados com a liberdade que garantiremos a eles. É feminista, né, deve engolir. Deve topar ménage. Ela é uma garota legal, deve ser poliamor, jogar poker, comer sem se preocupar com engordar, não vai me acordar 3 da manhã com baboseira sentimental e eu vou poder pegar geral.
Mas essa liberdade cativa apenas em um primeiro momento: porque o negócio não é a admiração pelo fato de a mulher fazer o que quiser, é pela impressão de que ELES vão poder fazer o que quiserem.
É sempre a mesma ladainha: nossa! Ela não tem frescura! Ela arrota, fala de sexo abertamente, sabe gírias de futebol, vai pra balada, enche a cara, não liga se eu ficar com quem eu quiser.
Mas para por aí.
Porque a verdade é que homens podem ficar deslumbrados com a nossa liberdade no início, mas na primeira oportunidade, tentarão impor um limite a ela.
"Tão livre, tão sem frescura... Mas OPA, COMO ASSIM VOCÊ NÃO SE DEPILA?"
"Ela não liga se eu ficar com quem eu quiser, mas OPA, COMO ASSIM VOCÊ PEGOU OUTRO CARA?"
"Ela não deve querer essas coisas chatas de meninas, mas OPA, UÉ, COMO ASSIM VOCÊ É UM SER HUMANO COM SENTIMENTOS E EU PRECISO LIDAR COM ELES?"
E, por isso, é aí que entra a Clementine. Depois que eu assisti Eternal Sunshine of the Spotless Mind e conheci uns tantos caras que fizeram exatamente tudo que eu acabei de falar, minha vontade foi de citar uma fala genial dela para todos eles.

"Muitos caras pensam que eu sou um conceito, que eu os completo ou que eu vou fazer com que eles se sintam vivos. Mas eu sou só uma garota ferrada que está procurando pela minha própria paz  de espírito. Não me encarregue da sua."


E sabem o que eu mais gosto nesse diálogo, tão cheio de significado, em que ela fala isso? Que depois, Joel diz que "eu ainda achei que você salvaria minha vida... Mesmo depois de dizer aquilo".
Pois é.
Além de não se preocuparem com a nossa carga emocional na maioria esmagadora das vezes - porque, afinal, Garotas Legais nem ao menos têm sentimentos - ainda querem que nós nos responsabilizemos pelos deles. Freud deve explicar... Aquela coisa toda de tratar namoradas como mães. Não sei.
Sinceramente, só sei que 'tô bem cansadinha de tratarem o feminismo como MAIS um item a ser fetichizado. Queria que entendessem que minha liberdade nada tem a ver com os homens, mas sim com a minha emancipação.
Ou você aceita o pacote completo, ou não me venha aceitar somente a parcela que te convém.

Um comentário:

  1. Cara, que incrível! Mindblowing total! Porque a gente sempre prioriza nosso ponto de vista, então pros homens quase tudo diz respeito aos homens. Esse texto é um tapa na cara que diz "ponha-se no seu lugar, queridinho, a minha vida é minha, não sua".
    Adorei!

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